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Superendividados revelam ‘lições’ e buscam saída contra a inadimplência

Walter Lima, fundador do grupo
Devedores Anônimos (Foto: André Teixeira/G1)

O psicopedagogo Luiz Antônio Nogueira Júnior, 42 anos, de Curitiba (PR),  viu a dívida ficar 35 vezes maior que seu salário. Thales Eduardo Perpétuo Nóbrega,  assistente administrativo de 35 anos de Niterói (RJ), chegou a dever mais de R$ 9 mil no cheque especial e no cartão de crédito. Walter Lima, servidor público de Fortaleza, comprometeu 100% da renda e chegou a ser perseguido por agiotas.
Quem já sofreu em situações de endividamento extremo – como os exemplos acima – nem quer ouvir falar do aumento da inadimplência, que chegou ao maior nível no país desde fevereiro de 2010, segundo dados do Banco Central divulgados nesta terça-feira (28).

Lutando para abandonar os dias de descontrole financeiro e zerar o saldo devedor, consumidores de cinco estados ouvidos pelo G1 compartilham lições que aprenderam as próprias experiências negativas. A pedido da reportagem, dão conselhos e relatos sobre como estão fazendo para sair do vermelho (veja quadro abaixo) e admitem que, às vezes, é difícil consumir sem exageros.

O servidor público Walter Lima, 60 anos, fundou em Fortaleza (CE) o grupo “Devedores Anônimos” após viver no limite das cobranças.O auge do seu endividamento ocorreu quando fez empréstimos com agiotas e bancos para cobrir “gastos excessivos”. Ficou com 100% da renda comprometida.

Perseguido por aqueles que emprestaram dinheiro e pagando juros no cartão de crédito e no cheque especial, ele temia as cobranças frequentes. “Era só um telefone tocar e meu coração palpitava”, conta. Atualmente, calcula que em três anos estará livre dos credores. “Tenho uma certeza na vida: vou pagar minhas contas e morrer sem dever a ninguém.”
Além da troca de experiências e do apoio mútuo, outra mudança de comportamento que ajudou o servidor foi “aprender a dizer não”. Ele conta que não resistia a pedidos de familiares, em parte por timidez, em parte pela compulsão por consumir. Da conversa franca com os filhos e parentes tirou outro conselho: não esconder a situação de endividamento.
“O gasto excessivo em muitos casos é uma doença, e doença não é uma vergonha”, afirma. De acordo com Lima, familiares e amigos podem ajudar a superar o tormento psicológico. “Pagar as dívidas é algo lento e exige muita força de vontade. Só com isso se pode superar o problema.”

Em Minas, o psicólogo Renato Palhares, de 47 anos, está livre das dívidas. Há dez anos, ele passava por situações difíceis.
“Naquela época, tinha um financiamento que era 120% do meu salário. Minha dívida chegou a cerca de R$ 10 mil. Era muito difícil. Afeta a sua vida pessoal. Foram várias discussões com a mulher. Tive que fazer bicos em outros empregos. Foi uma confusão”, disse.
Atualmente, Renato continua usando a mesma estratégia que o tirou das dívidas naquela época. “Dez anos atrás fiz um curso de dois dias para aprender a controlar os gastos. Criei uma planilha para ver onde podia economizar. Se você me perguntar, tenho anotado todos os meus gastos nestes dez anos.”

A vida financeira do psicopedagogo Luiz Antônio Nogueira Júnior, de Curitiba, começou a ser resolvida quando ele conheceu o Projeto de Tratamento de Superendividamento do Consumidor, coordenador pela Juíza Sandra Bauermann, em Curitiba.

A proposta é colocar na mesma mesa devedor e credor. Após quatro audiências, os R$ 35 mil devidos por Júnior foram reduzidos a uma dívida de R$ 13 mil, parcelada em 24 prestações.

O endividamento de Luiz Antônio durou quatro anos. E quando ele achava que a vida voltaria à normalidade, outra instituição financeira começou a cobrar um empréstimo que havia ficado esquecido.

“Eu procurei o banco três vezes e não tive retorno, achei que o empréstimo tinha terminado”, afirmou Luiz Antônio.

Ele recorreu novamente ao Projeto Tratamento de Superendividamento e em 14 de julho vai negociar com o banco.
Em um ano do Projeto Tratamento de Superendividamento do Consumidor, no Paraná, foi possível traçar o perfil das pessoas que buscam renegociar dívidas.

Luiz Antônio está entre os 6% que ficaram endividados por conta do fim de uma união estável. A maior causa de endividamento é o desemprego. Segundo dados do projeto, 30% das pessoas que estão endividadas chegaram a esta situação porque foram demitidas. Depois, com 25%, o segundo maior motivo é a redução da renda. E em seguida, com 22%, o endividamento ocorreu porque o cidadão gastou mais do que ganha.
A juíza Sandra Bauermann destaca que a atual facilidade de acesso ao crédito é um dos motivos do endividamento.

Segundo ela, o brasileiro não está acostumado com esta oferta e não tem o hábito de planejar o orçamento. “Eles não pensam que podem perder o emprego ou que alguém da família pode ficar doente”, exemplificou a juíza.

“Sou gastador compulsivo. Vou no mercado para gastar R$ 10 e acabo gastando R$ 50”, define-se o aposentado Enésio Ferreira Goiana, de 63 anos.
Para conseguir pagar os gastos que, segundo ele, são incontroláveis, o ex-metalúrgico acabou acumulando dívidas no crédito pessoal, em cartões de crédito e no cheque especial que, somadas, ultrapassam sua renda mensal de aproximadamente R$ 2 mil.

Goiana pegou um empréstimo para quitar
os demais e começar a organizar sua situação
financeira.
(Foto: Gabriela Gasparin/G1)
   

Cansado de perder noites em claro pensando em contas, Goiana quer regularizar sua situação. A forma que encontrou foi renegociar uma antiga dívida e pedir um novo empréstimo no valor de R$ 5 mil para quitar os demais e, assim, se controlar para não pegar mais dinheiro emprestado.

“Quero ter meu pagamento para ir no mercado e comprar o que eu precisar, ir no posto para pagar o combustível”, diz.

Com o novo empréstimo que fez, o aposentado diz que já tirou da carteira 3 de seus 4 cartões de crédito e pensa, ainda, em vender o carro para colocar as contas em dia.

“O problema é que, na hora que a gente fala que vai fazer economia, começam a chamar a gente de mão de vaca, pão duro, é difícil controlar”, diz Goiana.

 O assistente administrativo Thales Eduardo Perpétuo Nóbrega, de 35 anos, conseguiu pagar a dívida de R$ 9 mil graças a um empréstimo bancário.

Para colocar as contas em dia, Nóbrega trocou a dívida descontrolada por 34 prestações de R$ 480 que ele ainda precisa pagar do empréstimo bancário. “Já paguei duas. Foi bom porque consegui juros de 4% ao mês, três vezes menor do que o do cartão de crédito”, comemora.

“Eu não quero dizer que estou curado antes de pagar tudo. Mas posso aconselhar: se cuida, porque o (juro) 15% mensais do cartão de crédito é muito mais do que parece”, alerta.
Morador de Niterói, no Rio de Janeiro, Nóbrega começou a se endividar em setembro de 2010, quando comprou um computador e fez uma viagem para Florianópolis. “Meu computador antigo tinha quebrado. Mas, com relação à viagem, eu poderia não ter ido. Foi pura negligência”, admite. Ganhando um salário de R$ 1,7 mil, ele viu a dívida chegar a R$ 9,1 mil.
O assistente administrativo conta que “a hora do desespero” aconteceu quando não conseguiu pagar a prestação do apartamento.

“Eu estava começando a ficar sem dinheiro para almoçar, sequer para pegar um ônibus para o trabalho. Eu engordei dez quilos, pois larguei minha rotina de exercícios nesse período”, acrescenta.

(*Colaboraram André Teixeira, do G1 CE; Gabriela Gasparin, do G1, em São Paulo; Pedro Triginelli, do G1 MG;  Bibiana Dionísio, do G1 PR, e Bernardo Tabak, do G1 RJ)

DICAS DOS EX-SUPERENDIVIDADOS
1 Evitar empréstimos desnecessários
2 Realizar somente compras se puder fazer os pagamentos à vista
3 Reservar parte do salário para um fundo de reserva
4 Aprenda a “dizer não” para pedidos dos familiares e também para você mesmo
5 Não esconda sua situação de endividamento e obtenha ajuda
6 Faça uma planilha para controlar quais são seus recursos e gastos previstos
7 Procure ajuda para renegociar dívidas
8 Busque fontes extras de renda: vale fazer bicos ou arrumar novo emprego
9 Se necessário, trocar ‘dívidas caras’ por outras com juros menores
10 Cuidado com o cartão: na dia-a-dia, os juros são maiores do que parecem
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